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       Vocês devem saber que, se houvesse eu ter mexido irresponsavelmente no ninho daqueles deuses-humanóides, os que Freud miticamente apontou como tendo sido os do pré-tempo dos nossos arqui-antepassados – aqueles que eu digo que estavam perdendo as pautas e se tornando falantes – eu teria sido fulminado, em plena atualidade, pelo que destes ainda se transmite – para que haja a moderna horda, portanto, a coisa dos homens: os sintomaticamente pautados que ainda se julgam deuses. 
       A fundação do Colégio está pousada sobre este perigoso significante, e aí está a prova a que deve se submeter nossa mestria: a sustentação de um velho sonho que Freud não pôde, senão por este sonho, ser bastante sonhado – mesmo que este sonho tenha se chamado, a si próprio, de perturbador para, em seguida, aprisionar, por setenta anos, o sonhado Freud – num amigo e húngaro baú.

       O curioso é que – prestem atenção nesta viradinha: numa época em que ainda era impossível saber-se que fora este sonho o que fizera de um promissor Sigmund o nosso sagrado Freud,  um psicanalista genial, chamado Jacques Lacan, ao fazer os cortes de que precisava para seu inestimável rigor, dissesse que era este o sonho – o que sonhara Freud – o que não se devia sonhar, como se, ao fazer esta recomendação, pudesse Lacan passar por cima do que, ele mesmo, avançara sobre a Verneinung; pois, como seria possível a Lacan, uma vez que proibia algo a um Freud já sonhado – em pleno haver, mas não passável e não julgável – apenas trancafiado a nível de representação de palavra – como seria possível que, mesmo cumprindo sua regra de ouro, Lacan estivesse d’Isso transmitindo apenas obediência?
       Eis a filogênese da minha transgressão.

H. Haydt de S. Mello
20/06/1986

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